Lembra-se do tema dos Buggles “video killed the radio star”? Apesar das previsões, o mote do “hit” acabou por não se confirmar. Pois bem, os SUV de 7 lugares como o Kia Sorento ou o Hyundai Santa Fe ameaçam a existência de monovolumes como o Ford S-Max, mas será mesmo assim? É o que vamos tentar perceber nas linhas que se seguem.

Há pouco mais de duas semanas questionei o responsável de design da DS sobre esta “avalanche” SUV. Seria uma moda para ficar? Estariam mesmo os monovolumes condenados à extinção, substituidos pelos mais versáteis e elegantes Crossovers e afins. A ambas as perguntas as respostas foram afirmativas, até porque, para Thierry Métroz, o facto de os chineses não serem grandes fãs de monovolumes dificulta-lhes a vida no colossal mercado asiático e torna o formato menos atrativo para algumas marcas. Mas se é verdade que um SUV de sete lugares como o novo Hyundai Santa Fe ou o Kia Sorento oferecem algumas vantagens face a um “rasteirinho” S-Max, o modelo da Ford não surge desprovido de argumentos.

A palavra final

Quem já viajou com crianças num carro (seja ele qual for) com três filas de bancos, sabe o fascínio que a última fila parece exercer sobre os mais pequenos. Se as crianças forem realmente de menor estatura, arranjam sempre maneira de “escalar” até ao lugar pretendido, agora se forem maiorzinhos ou adolescentes, o acesso pode ser um problema. Quando comparado com o Sorento ou, em especial, o Santa Fe, o S-Max não só tem um acesso muito mais fácil, como o próprio espaço em largura na terceira fila é bastante superior, já que a intrusão das cavas das rodas é menor (as cavas das rodas traseiras são bem mais pequenas). A própria altura ao solo, associada à menor amplitude de movimentos do banco da segunda fila (o único que rebate é o do lado direito), torna o acesso à terceira fila de bancos de um SUV digna de um ginasta olímpico ou, pelo menos, de alguém com alguma elasticidade. O mesmo se aplica à capacidade da mala, já que um espaço de carga mais “limpo” da intromissão de elementos mecânicos torna-se maior e mais utilizável. Mas os argumentos do interior do S-Max não ficam por aqui. Como verdadeiro monovolume que é, o Ford oferece sete bancos individuais que podem ser regulados de forma independente, enquanto os seus adversários oferecem um banco da segunda fila repartido na configuração 60:40, o que limita a modularidade, um atributo que, até ver, ainda é dominado pelos monovolumes convencionais. Mas não foi só por isso que o S-Max se afirmou como um sucesso de vendas na anterior geração e subsistiu ao “ataque” dos SUV. Além do desenho muito inspirado da 1ª geração do Ford (mais até do que esta), o S-Max é uma espécie de subgénero de monovolume de inspiração “desportiva”. Com um chassis muito eficiente, comandos precisos e um motor 2.0 TDCI de 180 cv possante q.b, o S-Max é realmente divertido de conduzir. A própria caixa automática de seis relações (powershift) não dilui esta impressão e contribui decisivamente para a facilidade de utilização em cidade. E isto sem prejudicar muito os consumos, que estão perfeitamente alinhados com os dos dois SUV em compita. Onde o Ford não consegue acompanhar os seus adversários é na paz de espirito que os pneus mais altos e a maior altura ao solo proporcionam, mesmo a circular em ambiente urbano. Além de permitirem as ocasionais escapadelas fora do alcatrão com a família toda atrás, literalmente...

Mas convém não arriscar já que com apenas duas rodas motrizes, 200 cv de potência e 440 Nm de binário, a motricidade do Santa Fe e do Sorento já não é referencial em alcatrão, quando mais fora dele. De facto, este é um dos pontos em que os SUV coreanos mais têm de evoluir. A suspensão é confortável e a direção é leve, mas falta alguma precisão aos comandos e um maior controlo de movimentos da carroçaria. A própria escolha de pneus pode revelar-se decisiva. Curiosamente, a oportunidade de ensaiar recentemente um Sorento de caixa automática revelou uma maior aptidão deste para lidar com o vigoroso 2.2 CRDI, limitando as perdas de tração, sem qualquer impacto negativo nas prestações. Sem dúvida uma opção a ter em conta, tanto para o Kia como para o Hyundai.

Outra curiosidade prende-se com a qualidade interior, já que, apesar de mais recente e caro, o Hyundai não nos pareceu tão rigoroso como o Kia. A apresentação do Santa Fe é mais moderna e sofisticada, mas o Sorento revela maior atenção. O S-Max até oferece materiais de melhor qualidade do qualquer um dos dois, mas no Ford o problema é mesmo a montagem, que apresenta falhas evidentes.

Onde os coreanos continuam a mostrar-se imbatíveis é nas garantias. Enquanto o S-Max se cinge ao mínimo previsto por lei (2 anos), o Santa Fe tem 5 anos de garantia geral e o Sorento chega mesmo aos 7 anos. Além disso, a Hyundai está a oferecer cinco anos de manutenção programada na compra do novo Santa Fe. A esta oferta soma ainda 1500€ de desconto imediato ou 3000€ se o cliente optar pelo financiamento.

Ainda assim, parece pouco quando comparado com os descontos oferecidos pela Ford e pela Kia. O S-Max tem um desconto de 2300€ no preço e uma oferta de equipamento que contempla, no caso deste nível Titanium, a câmara 180º, a navegação+Sync2, o sistema de estacionamento automático e a chave inteligente. E se o cliente optar pelo financiamento Ford Crédito, o desconto adicional ainda pode chegar aos 3350€. A Kia também é particularmente generosa, já que o desconto direto no Sorento é de 3000€, mas com financiamento pode atingir os 5400€.

É verdade que o Santa Fe é o melhor equipado de série, mas com a diferença de preço face aos seus adversários é possível equipar o Ford com uma lista infindável de elementos de conforto e segurança e dotar o Sorento de todos os extras previstos pela Kia e, ainda assim, manter um preço muito mais baixo. Aliás, sabendo à partida que o Hyundai e o Kia partilham tantos elementos comuns é difícil perceber que estejam separados por mais de 8000€ no preço...

É verdade que o Hyundai é mais elegante, recente e a imagem é ligeiramente melhor, mas nem um previsível maior valor de retoma atenua uma tão grande diferença de valores. E este argumento é, por si só, capaz de levar o Sorento a um merecido segundo lugar na tabela de pontuações.

Com os SUV do mesmo grupo entretidos numa luta fratricida, a Ford S-Max navegou até uma vitória folgada, alicerçada nas mais-valias dinâmicas, numa agressiva política comercial da Ford, no melhor aproveitamento do espaço interior e na superior versatilidade. Ou seja, na prática, o S-Max ganha o comparativo porque é... um monovolume de corpo e alma. 

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