A que preço não custa nada?

No marasmo do verão, entre a camuflagem de cérebros adormecidos, explicam-se golpes financeiros pela rama e sem culpa; nomeiam-se filhos de amigos políticos para lugares de concurso e perdoa-se o desvio de milhões com meia-demissão. Não há que espantar aqui. De fininho, nos últimos anos, a classe governante convenceu-se que faria dos portugueses burros, e os portugueses, com o tempo, convenceram-se de que ser burro já não é nada mau. Desde que não batam com muita força, vão-se aguentando as vergastadas; e se não lhes faltarem farelos, não importa que os outros fiquem com o pasto verde. A analogia nasce do praticante de hipismo de Cascais que, com ar sério - e eventualmente depois de retirar o garanhão do seu Bockmann puxado por um Range Rover V8 S/C - acusa, frente às camaras da TV, os portugueses de não ligarem nenhuma à modalidade; de não serem como os alemães, que têm sempre um cavalinho no jardim para darem uns saltos! Eu dei um salto para a Terra. E parei num desses restaurantes de beira de estrada nacional - é isto que agosto também tem de bom: mais tempo para fugir às autoestradas. E apesar de rodeado por carros e camiões, sinal de boa mesa noutros tempos; e com clientes à espera lá dentro, foi dos piores almoços que já fiz. A comida era mesmo má, oleosa e mal empratada, como agora se diz. Os comensais à volta, pareciam pensar o mesmo, mas tinham um ar conformado. Como quem pensa: a comida é uma porcaria, mas por este preço...

E assim, compreende-se que no caminho também não estranhem as estradas mal-amanhadas, pouco e mal sinalizadas, apesar dos impostos que pagam como automobilistas; nem estranhem as portagens sem portageiros e com máquinas que quase já só aceitam dinheiro... Vá lá, já é uma sorte deixarem-nos andar por aí.

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